Rios (parte 2): Leques Aluviais e Deltaicos - Sobre Geologia

09/06/2019

Rios (parte 2): Leques Aluviais e Deltaicos

Na belíssima canção junina “Riacho do Navio”, o pernambucano Luiz Gonzaga canta “E o Rio São Francisco vai bater no meio do mar”. Podemos conectar esse trecho a geologia já que, os rios que desembocam em oceanos, como é o caso do Rio São Francisco, formam um depósito sedimentar muito característico chamado delta.
Dando continuidade à série de artigos sobre rios iniciada neste artigo, que aborda os aspectos classificatórios dos rios, o texto de hoje, e o segundo dessa série, abordará as definições de leque aluvial e leque deltaico assim como sua formação e os processos relacionados a eles.
Delta do Rio São Francisco. Fonte: Antonio Marin Jr.
Disponível em: https://www.flickr.com/photos/antonio_marin/13768862795 
Introdução
Os chamados processos aluviais envolvem a erosão, transporte e sedimentação quando estão relacionados a águas fluviais. Eles são responsáveis por formar um grupo de depósitos sedimentares específico chamados de depósitos aluviais. Dois dos mais importantes depósitos aluviais são os leques aluviais e os leques deltaicos, que serão detalhados ao longo desse texto.
Leques aluviais
Leque aluvial na província de XinJiang, China.
Fonte:  NASA / GSFC / METI / ERSDAC /
 JAROS / US-Japan ASTER Science Team
Disponível em: 
http://www.sci-news.com/space/
titans-methane-downpours-04519.html

Leques aluviais podem ser definidos como um depósito aluvial que se encontra no sopé de montanhas com o formato triangular, sua superfície tem um formato côncavo para cima que liga uma parte mais elevada, e íngreme, com um vale mais baixo, e plano.
Esse tipo de depósito ocorre quando um rio que se encontra em um estreito vale montanhoso tem que se adaptar rapidamente a um vale aberto e plano em altitudes mais baixas, por isso está frequentemente associado a íngremes escarpas de falha. Com o alargamento do canal assim como a diminuição da declividade da vertente, a velocidade do rio diminui, o que explica as características dos sedimentos encontrados, que são mais grossos (de matacão a areia) nas partes superiores, que são mais íngremes, logo, a corrente do rio tem mais força para transportar sedimentos maiores, e mais finos (de areia fina a argila) nas partes inferiores, onde a corrente não tem força para transportar sedimentos grandes.
Quando existem inúmeros leques aluviais em um sopé de uma montanha eles podem acabar se unindo, fazendo com que os limites que separavam cada leque não sejam mais visíveis, tornando impossível separar esse grupo de leques em leques individuais. O nome dado a essa situação específica é de leques coalescentes.
Representação gráfica de um leque aluvial.
Fonte: https://sites.google.com/site/supercoolgeology/fluvial/Alluvial-Fan
(Imagem alterada).

Leques deltaicos
Delta de Okavango, Botsuana. Fonte: Justin Hall.
Disponível em: https://es.wikipedia.org/wiki/Delta_del_Okavango#/
media/Archivo:A_view_down_into_the_Okavango_Delta.jpg
O termo delta foi criado por Heráclito, no século V a. C, ao observar os canais distributários do rio Nilo e sua semelhança com o formato da letra grega “Δ”, mas esse termo só foi incluído de fato na literatura geológica no início do século XIX por Lyell (Le Blanc, 1975).
Todos os rios tem um nível de base, que significa a menor elevação ao qual um rio pode erodir seu próprio canal. Em canais onde o nível de base é o oceano são formados deltas, que podem ser definidos como protuberâncias na linha de costa onde os rios deságuam em oceanos, mares ou lagos construídos por sedimentos carregados pelo próprio rio. Logo, basicamente, podemos definir leques deltaicos como leques aluviais que terminam em um corpo d’água, como um lago ou o oceano.
Os deltas são formados quando um rio adentra um oceano ou um lago e a força da sua corrente diminui gradualmente, até deixar de existir. Consequentemente, a capacidade de carregar sedimentos que um rio possui diminui cada vez mais, fazendo com que à medida que o rio adentra mais o oceano, mais finos os sedimentos que ele tem capacidade de carregar.
Os sedimentos que o rio não tem mais como transportar são depositados, então os sedimentos maiores (principalmente areia) são depositados logo na sua foz, em seguida, um pouco mais afastado, as areias mais finas e silte, por último e mais afastado de todos, é depositada a argila. Com esses materiais depositados no assoalho oceânico ou no fundo de um lago, acaba se formando uma plataforma deposicional, chamada delta. Essa plataforma se divide em três camadas de acordo com a granulometria sendo elas a camada de topo (composta de areia), a camada frontal (areia fina e silte) e camada basal (argila).
Morfologia dos Deltas
Segundo Gallowey, a morfologia deltaica pode ser descrita com base nas interações entre o volume de sedimentos fluviais que adentram a bacia e os processos que ocorrem na bacia, sendo os principais as marés e ondas. Dessa forma, é possível classificar um delta de três formas diferentes: deltas dominados por processos fluviais, por ondas e por marés.
Os deltas dominados por processos fluviais se apresentam similares à forma como o rio deposita seus sedimentos, ou seja, as partes superiores apresentaram sedimentos de maior granulometria enquanto os das partes inferiores apresentam sedimentos de menor granulometria.
Delta dominado por processos fluviais, Rio Mississipi, Estados Unidos.
Fonte: Richard Alley.
Disponível em: http://www.zonacosteira.bio.ufba.br/deltas.html
Os sedimentos fluviais dos deltas dominados por ondas, devido à energia das ondas incidida sobre eles, são transportados transversalmente ao próprio rio, gerando depósitos paralelos à linha de costa como cordões litorâneos, pontais, barreiras e dunas (Wright e Coleman, 1972, 1973; Coleman e Wright, 1975; Galloway, 1975).
Delta dominado por ondas, Rio Jequitinhonha, Minas Gerais, Brasil.
Fonte: Dominguez. Disponível em: http://www.zonacosteira.bio.ufba.br/deltas.html
Os deltas de marés têm uma particularidade porque estão relacionados a regiões de manguezais e marismas. A influência da maré faz com que se formem ilhas longitudinais que dividem a desembocadura em diversos pequenos cursos de água, nesses pequenos cursos estão localizados os mangues.
Delta dominado por marés, delta do Ganges-Brahmaputra, região de Bengala
Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Ganges_Delta#/media/File:Gangesdelta_klein.jpg
Conclusão
Os leques aluviais e os leques deltaicos são feições muito comuns e importantes no contexto geológico. Nesse artigo foram abordadas a sua formação e as principais morfologias. Este foi o segundo texto dessa série e outros temas serão tratados posteriormente. Mantenha-se informado pelo Facebook e Instagram do Sobre Geologia para não perder os próximos artigos dessa série!
Referências:
TEIXEIRA, Wilson; FAIRCHILD, Thomas Rich; TOLEDO, M. Cristina Motta de; TAIOLI, Fábio. Decifrando a Terra. 2aedição. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2009.
PRESS, Frank; SIEVER, Raymond; GROTZINGER, John; JORDAN, Thomas H. Para Entender a Terra. 4aedição. Porto Alegre: Bookman, 2006.
GUIMARÃES, Junia Kacenelenbogen. Evolução do delta do rio São Francisco - estratigrafia do Quaternário e relações morfodinâmicas. 2017. 145 f. Tese de Doutorado – Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2017. Disponível em: http://repositorio.ufba.br/ri/handle/ri/21481
http://sigep.cprm.gov.br/glossario/
http://www.cesadufs.com.br/ORBI/public/uploadCatalago/15510816022012Geomorfologia_Fluvial_e_Hidrografia_aula_6.pdf
https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/3021514/mod_resource/content/1/Aula%209-%20Deltas.pdf
https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/3021490/mod_resource/content/2/Aula%205%20b%20-%20Leques%20aluviais.pdf
https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/4384482/mod_resource/content/1/Aula%204b%20estilos.pdf
http://www.zonacosteira.bio.ufba.br/deltas.html
https://www.scientiaplena.org.br/sp/article/view/2074/1118
Artigo escrito por Isabel Schulz e revisado por Maria Clara Ramos.

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