Parque Estadual Vila Velha - Sobre Geologia

06/10/2019

Parque Estadual Vila Velha


Existem diversos parques estaduais em toda a extensão do Brasil, eles são Unidades de Conservação (UC) de acordo com o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC - Lei 9.985/2000), o que significa que são áreas que devem ser utilizadas de forma sustentável com o intuito de preservar sua fauna, flora, hidrografia, ambiente geológico, etc. Um dos parques mais famosos e mais visitados do Brasil, foram estimados 20.000 visitantes por ano durante a década de 90, é o Parque Estadual Vila Velha no Paraná. Esse se localiza a 80 Km a WNW de Curitiba e a 20 Km a ESE de Ponta Grossa. Sua área é de 3.122,11 ha e engloba, principalmente, as esculturas naturais em arenitos, sendo a mais famosa delas a taça. No artigo de hoje serão retratados aspectos do Parque Estadual, além de detalhes sobre a sua formação geológica.


Além dos característicos arenitos, o Parque Estadual Vila Velha possui outras feições muitíssimo interessantes como as furnas e a Lagoa Dourada. Ele está localizado na borda oriental da Bacia do Paraná, logo a gênese e evolução de suas feições características estão associados a ela, então é importante entender sobre essa Bacia antes de tratar, de fato, do parque.

Geologia Regional
A Bacia Sedimentar do Paraná está localizada no Centro-Oeste da América do Sul com uma extensão de 1.500.000 Km2 (1.100.000 desses em território Brasileiro), ocupando os Estados do Paraná, São Paulo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul, além dos países Paraguai, Uruguai e Argentina.
Ela pode ser classificada como uma bacia intracratônica (para entender mais sobre os tipos de bacia sedimentar clique aqui) que evoluiu na Plataforma Sul-Americana a partir de um rift Neo-ordoviciano. A deposição dos sedimentos ocorreu desde o Período Ordoviciano até o Cretáceo.
Por ter sido formada em uma área de intensa subsidência, a Bacia pôde acumular uma grande espessura de sedimentos, podendo chegar a 5 mil metros de profundidade. Além da subsidência, estão associados a história geológica da bacia fenômenos orogênicos na borda da Placa Sul-Americana, soerguimentos e magmatismo.
Existiram seis sequências deposicionais que foram responsáveis pelo preenchimento da bacia. São elas: Rio Ivaí (Ordoviciano - Siluriano), Paraná (Devoniano), Gondwana I (Carbonífero - Eocretáceo), Gondwana II (Meso a Neotriássico), Gondwana III (Neojurássico - Eocretáceo) e Bauru (Neocretáceo).
Estão presentes na área do Parque Vila Velha as Formações Furnas e Ponta Grossa, da sequência Paraná, além do Grupo Itararé, da sequência Gondwana I.


Formação Furnas
Essa formação é composta por arenitos de granulometria média e fina de cor clara com mineralogia feldspática e/ou caulínicos, com grãos angulosos a sub-angulosos e moderadamente selecionados. A granulometria se torna mais fina de forma ascendente, a espessura da formação varia de 0,5 a 5 metros e sua geometria pode ser tabular, lenticular ou cuneiforme. Sua origem ainda é incerta, os autores discutem entre marinha, fluvial, flúvio-marinha ou deltaica.

Formação Ponta Grossa
A formação Ponta Grossa foi subdividida por Lange & Petri (1967) em três membros diferentes, sendo eles: Jaguariaíva, Tibagi e São Domingos. Em geral ele é caracterizado pela grande fossilização, como bivalves, gastrópodes, trilobitas, braquiópodes, cricoconarídeos, etc.
  • O membro Jaguariaíva é composto por folhelhos com bioturbação e fossilizados com lentes de arenito de granulometria fina. Sua deposição está associada a plataforma marinha rasa e sua espessura é de 100 metros.
  • O membro Tibagi é composto por arenitos de granulometria fina a muito fina lenticulares e fossilíferos associados a folhelhos siltíticos. Sua deposição foi em sistemas marinhos plataformais e sua espessura varia de 20 a 35 metros.
  • O membro São Domingos é composto por folhelhos laminados de cor cinza associado a arenitos de granulometria fina. Sua deposição foi por meio de ambiente marinho e sua espessura é de 90 metros.
Grupo Itararé
O grupo Itararé foi depositado por meio flúvio-glacial e uma das características de depósitos glaciais é a grande variedade de granulometrias, logo o grupo não é diferente apresentando tilitos, diamictitos, varvitos, arenitos e folhelhos. Isso foi possível porque há 306 milhões de anos atrás, entre o Carbonífero Superior e o Permiano a área que hoje entendemos como Sul do Brasil estava muito próximo ao polo Sul, estando coberto por gelo. Quando essas geleiras se derreteram diversos tipos de sedimentos foram depositados.
Esse grupo está subdividido nas formações Lagoa Azul, Campo Mourão e Taciba. Os arenitos encontrados no Parque são chamados de Arenito Vila Velha e fazem parte da formação Campo Mourão.


Comparação entre a terra há 306 milhões de anos atrás e hoje. Fonte: Mineropar.

Arenito Vila Velha
As esculturas naturais formadas no arenito vila velha foram nomeados conforme seu aspecto morfológico que lembrava certas figuras reconhecíveis do mundo real. Além da taça outras esculturas são bota, tartaruga, camelo, esfinge, cabeça de índio, etc.
Essas formas foram esculpidas por meio da erosão, mas, diferente do que acredita-se no senso comum, não foi por meio de erosão eólica e sim por ação das chuvas, energia solar, mudança de temperatura e de atividades orgânicas. As zonas de fraqueza e descontinuidades da rocha foram responsáveis por compor essas formas tão variadas, sendo elas as falhas, fraturas, estruturas sedimentares específicas, textura e composição variante, isso faz com que a erosão ocorra com mais intensidade em algumas partes em comparação a outras.
A partir dessa erosão são formados os chamados, geomorfologicamente, de morros testemunhos que são elevações em relação ao resto do relevo, já que estes são mais resistentes à erosão. Os arenitos possuem de poucos a 20 metros de elevação em relação ao seu entorno. O relevo também pode ser classificado como ruiniforme, que é um tipo de relevo que lembra ruínas.

Relevo ruiniforme do Parque Estadual Vila Velha. Fonte na imagem.

Furnas
O termo furna pode ser definido como caverna, cova ou lapa, ou seja, uma área onde houve um desabamento. As furnas que ocorrem na formação furnas são chamadas tecnicamente de poços de desabamento (também chamadas de "sink holes" para saber mais a respeito clique aqui) que são feições cilíndricas com profundas paredes verticais formadas a partir da queda do teto do arenito. A formação desses poços se dá pela infiltração da água pelas fraturas do arenito, que é caracterizado pela presença de minerais solúveis, o que forma uma cavidade que vai aumentando até o ponto que ocorre o desabamento.

Etapas da formação de uma furna. Fonte: Mineropar.
Existem 12 furnas na área do Parque Estadual Vila Velha sendo as mais evidentes a Lagoa Dourada, que é uma furna assoreada de 200 metros de diâmetro e 5,4 metros de profundidade inundada que funciona como um aquário natural, e a número 1, que possui 80 metros de diâmetro e 111 metros de profundidade. No passado ela possuía um elevador e uma plataforma flutuante para visitação, mas hoje, por questões de segurança, não está em funcionamento.

Furna da Parque Estadual Vila Velha. Fonte: TripAdvisor.

Conclusão
O Parque Estadual Vila Velha exibe formas geológicas exuberantes que indicam muito sobre a história geológica não só do Paraná como do Brasil, além disso abriga espécies vegetais típicas, como as araucárias, e animais, como os peixes que se utilizam da Lagoa Dourada para a reprodução. Por isso é importante que essas áreas sejam conservadas. O parque é aberto a visitação e custa o valor simbólico de R$ 10,00 para a visitação dos arenitos, R$ 8,00 para as furnas e R$ 10,00 como taxa do guia, sendo então a visita completa R$ 28,00.

Referências
MILANI, Edison J.; RAMOS, Victor A. OROGENIAS PALEOZÓICAS NO DOMÍNIO SUL-OCIDENTAL DO GONDWANA E OS CICLOS DE SUBSIDÊNCIA DA BACIA DO PARANÁ. Revista Brasileira de Geociências. Dezembro, 2018.
http://ri.uepg.br:8080/riuepg/bitstream/handle/123456789/598/ARTIGO_GeologiaPlanoManejo.pdf?sequence=1
http://rodadas.anp.gov.br/arquivos/Round14/Mapas/sumarios/Sumario_Geologico_R14_Parana.pdf
https://www.mma.gov.br/areas-protegidas/unidades-de-conservacao/sistema-nacional-de-ucs-snuc.html
http://www.pontagrossa.pr.gov.br/parque-estadual-vila-velha
http://www.mineropar.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=14
http://www.mineropar.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=24
http://www.geomorfologia.ufv.br/simposio/simposio/trabalhos/trabalhos_completos/eixo12/033.pdf
http://publicatio.uepg.br/index.php/exatas/article/viewFile/141/15
http://www.mineropar.pr.gov.br/arquivos/File/Paineis_geologicos/FurnasdoParqueEstadualdeVilaVelha_portugues.pdf
http://www.iap.pr.gov.br/modules/ucps/aviso.php?codigo=34


Escrito por Isabel Schulz e revisado por Gustavo Cerqueira

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